Projeto Usina de Arte: Um novo caminho de volta à antiga casa

Projeto Usina de Arte, em Água Preta, propõe reocupação do lugar de forma sustentável para população do entorno

O artista plástico e curador José Rufino.

Entrar na Usina Santa Terezinha, em Água Preta, na Mata Sul de Pernambuco, chega a arrepiar. A estrutura em ruína tem marcas de um trabalho esgotante, com a carga de uma atividade idem, mas que acabou por ali. O cenário que foi casa de mais de duas mil pessoas em tempo de safra 20 anos atrás busca um resgate para atual e futura gerações. Filhos e netos, hoje, fazem o caminho de volta, mas de uma maneira diferente. O sintoma de dependência do trabalho na cana-de-açúcar vai sendo substituído. Empreendedorismo e cultura assumem nas primeiras intervenções no local. E é onde Carolina dos Santos, de 17 anos, moradora da vila da usina, passeia para mostrar parte do seu trabalho novo. Ela integra o projeto Usina de Arte, uma reocupação do lugar. Dessa vez, o trabalho é outro. Longe da cana e perto da cultura.

Conforme André Clemente do DP, ela estuda administração e informática em Palmares, cidade polo da região, e viu que o roteiro dos pais, amigos dos pais, dos tios… não precisava se repetir. “Meu pai trabalhou aqui e agora eu faço parte de um pedaço que ele fez. Quem não trabalha com política tem que sair. Não tem opção. E quem fica depende de dinheiro de quem foi. Agora vai ser diferente. Não vou precisar trabalhar e mandar dinheiro porque vou estar aqui, trabalhando pra o lugar que eu vivo. E eu agradeço a seu Ricardo por isso”, destaca.

O primeiro objetivo é esse: despertar o olhar da comunidade com a arte e gerar oportunidades e negócios que quebrem o paradigma de trabalho com cana. Crianças e jovens veem o início da construção do que será de fato a reocupação do lugar, com arte. As máquinas que depositavam o açúcar são apoio para a instalação de oficinas de pintura e o antigo escritório vira palco de escola de música. Do lado de fora, a devastação é construtiva, de um futuro para a mesma vila, para que ela se resolva em meio a 30 hectares de verde e mais de três mil espécies de plantas no futuro jardim botânico.

O seu Ricardo é Ricardo Pessoa de Queiroz, “lá de cima, da casa grande”, como apontam os moradores indicando o nosso caminho ao encontro dele. É só referência. É embaixo, no chão, que ele tira do papel o que vai jogar luz à Mata Sul, esquecida na interiorização dos bons momentos da economia pernambucana. O bisneto do homem que construiu a vila para abrigar os trabalhadores da usina, lá em 1926, e que se afastou em 1980, “voltou” em 2012 e encontrou uma comunidade cética e sem qualquer relação com a usina. Decidiu “interagir”. Sua esposa, Bruna Pessoa de Queiroz, criou a associação Jacuípe, em homenagem ao rio local, que divide os estados de Alagoas e Pernambuco e comanda junto com Bárbara Maranhão e o artista José Rufino. É a associação dessas mentes “malucas” que vai tirar o projeto do papel.

“Me incomodava muito o fato de sempre existir esperança de a usina voltar a moer. Quando a gente voltou pra cá, ficava essa pergunta. E veio a ideia. Cada um pode ser a sua própria usina. Começamos o processo de trazer arte e da cultura”, pontua. “E quando se aprende um ofício, seja pintura, dança, fotografia, vai para a vida dele e ele escolhe o limite para crescer. A usina quer isso para a comunidade. A independência financeira da forma rica.”

O jardim botânico será integrado a obras de artistas como Paulo Bruscky, Márcio Almeida, Marcelo Silveira, Paulo Meira e Francisco Brennand. A ideia é que as obras habitem o jardim, entre as lagoas e sem as limitações de alguns galpões da usina e que hoje são as primeiras intervenções artísticas do projeto. Ele mostra o que já está plantando e fala como quem descreve um filho: “aqui ficarão as árvores, as palmeiras…. Ali ficarão as plantas de paisagismo e botânica”, apontou. Aproveita e, manualmente, corta as folhas secas das palmeiras: “planta seca não regenera. A gente corta para que a energia da planta não seja desperdiçada”, diz encantado.

Renovação

Projeto Usina Santa Terezinha

  • Equipamentos: Hangar transformado em exposição fixa do artista paraibano José Rufino. Entre as peças, uma réplica legítima do Rio Jacuípe, que divide os estados de Alagoas e Pernambuco, onde fica a Usina.
  • Jardins: por todo o terreno da usina com peças de Hugo França, que produz mobiliário urbano e de interação a partir da madeira de árvores ou resíduos de reservas florestais
  • Exposição fixa: peças de arte de Carlos Melo
  • Jardim Botânico: integrado, com cerca de 29 hectares de área e 3 mil espécies de plantas, entre elas 140 espécies de palmeiras, ipês e plantas nativas. Além de duas lagoas construídas abastecidas com nascentes naturais, 100% por força de gravidade.
  • Festival Arte na usina: com oficinas de pintura, fotografia, cinema, entre outras capacitações para a comunidade
  • Música: escola de música e fábrica de instrumentos
  • Atividades empreendedoras: parcerias com o Sebrae para identificar oportunidades de negócios e fomentar o negócio próprio da comunidade, a partir da demanda criada pelo projeto na usina
Visitantes recebidos por Ricardo Pessoa de Queiroz e pelo artista plástico e curador José Rufino.

“Me incomodava muito o fato de sempre existir esperança de a usina voltar a moer. Quando a gente voltou para cá, ficava essa pergunta. E veio a ideia. Cada um pode ser a sua usina”
Ricardo Pessoa de Queiroz, empresário

Assista:

O artista plástico e curador José Rufino apresenta o projeto Usina de Arte, que acontece na Usina Santa Terezinha, na Zona da Mata, sul de Pernambuco. Trata-se de uma mistura de centro cultural com residências artísticas e festival de cultura.

 

 

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